O IBGE, órgão que produz os números oficiais de inflação, emprego, PIB e pobreza do país, vive a mais grave crise institucional de sua história recente. Desde janeiro de 2025, a gestão de Marcio Pochmann, economista ligado ao PT nomeado por Lula em 2023, acumula: a saída de quatro diretores em uma primeira onda; a exoneração da coordenadora de Contas Nacionais, Rebeca Palis, a área que calcula o PIB, seguida da entrega de cargos de três gerentes em protesto; cartas de servidores com 136 e mais de 600 assinaturas; greve em três unidades iniciada neste mês; uma fundação privada declarada ilegal pelo TCU; e um pedido de afastamento do próprio Pochmann feito pelo Ministério Público junto ao tribunal.
Duas ondas de debandada, com nomes e datas
Em janeiro de 2025, deixaram a direção Elizabeth Hypolito (Pesquisas) e seu adjunto João Hallak Neto, seguidos de Ivone Lopes Batista (Geociências) e Patrícia do Amorim Vida Costa, todos citando falta de diálogo com a presidência, como registraram Poder360 e InfoMoney. Na mesma época, carta aberta com 136 assinaturas de gerentes e coordenadores acusou a gestão de "viés autoritário, político e midiático" e alertou: "Nossa preocupação é justamente manter a qualidade e, sobretudo, a confiabilidade dos dados" (Exame). Outra carta, com mais de 600 assinaturas, pediu a saída de Pochmann. Em janeiro de 2026 veio a segunda onda, na área mais sensível do órgão: Rebeca Palis foi exonerada em 19 de janeiro, leitura de colegas: retaliação por assinar cartas críticas, e os gerentes Cristiano Martins, Claudia Dionísio e Amanda Tavares entregaram os cargos em protesto (Poder360, Metrópoles), às vésperas da implementação do novo ano-base do Sistema de Contas Nacionais, processo que a Gazeta do Povo descreveu como "complexo e sensível". Neste agosto, a ASSIBGE, sindicato dos servidores, iniciou greve que desde o dia 17 atinge três unidades, com pautas de remuneração e gestão (Poder360).
Fundação ilegal e pedido de afastamento
A gota que uniu os técnicos contra a presidência foi a Fundação IBGE+, entidade de captação privada criada por Pochmann em 2024 sem passar pelo Conselho Diretor; servidores viram risco à confidencialidade dos dados e um "IBGE paralelo". Após parecer contrário da AGU, a fundação foi suspensa e, em fevereiro de 2026, o TCU a considerou ilegal; o IBGE a extinguiu. Em 11 de março, o procurador Júlio Marcelo de Oliveira, do MP junto ao TCU, pediu o afastamento de Pochmann, citando "um quadro institucional preocupante, com potenciais repercussões jurídicas relevantes" (Poder360); o pedido segue sob análise. Pochmann nega tudo: "Não tem perseguição, absolutamente nada disso", disse ao Poder360 em fevereiro, chamando a rotatividade de "processo democrático". Em nota de janeiro de 2025, a presidência do órgão classificou as acusações de servidores e sindicatos como "inverdades".
E a versão de que os dados estão sendo alterados?
Com a crise, voltou a circular nas redes a versão de que técnicos estariam saindo por se recusar a maquiar números, ou sendo obrigados a alterá-los para favorecer o governo. Esta redação checou, e o resultado é taxativo: não há registro checável de nenhum servidor, em nenhuma carta, assembleia ou entrevista, fazendo essa denúncia. A própria ASSIBGE, que lidera a oposição a Pochmann, afirmou que "nunca houve denúncia de interferência técnica na metodologia ou nos resultados das pesquisas". O Aos Fatos e o Estadão Verifica desmentiram as versões virais, e a ex-presidente do IBGE Wasmália Bivar, crítica dura da atual gestão, foi direta: "Para manipular dados, é preciso que haja um complô... Não existe mais possibilidade de mudança". As queixas documentadas dos servidores são sobre gestão, aparelhamento e condições de trabalho, não sobre a integridade dos números.
A crítica verdadeira não precisa do boato
A distinção importa, e muito, para quem fiscaliza o poder. A crise real já é grave o bastante: o órgão que mede a economia perdeu, em plena véspera de eleição e de revisão do ano-base do PIB, a coordenadora e gerentes da equipe que calcula o indicador; teve uma fundação criada à margem da lei, segundo o TCU; e está em greve. Tudo isso tem nome, data e documento, e cobra resposta do governo que nomeou e mantém Pochmann no cargo. Já a fraude inventada presta um desserviço duplo: expõe quem a repete e entrega ao governo o álibi perfeito para tratar toda a crítica como desinformação. A credibilidade do IBGE é patrimônio de todos os lados, é ela que valida inclusive os números desconfortáveis ao governo, como o recorde de gente nas ruas e o vermelho do comércio que este site já noticiou. Defender o termômetro e cobrar o fim da crise que o ameaça: essa é a posição desta casa.
Fontes
Poder360: Em atrito com funcionários, IBGE anuncia troca de mais 2 diretores (23/01/2025)
InfoMoney: Crise no IBGE, entenda o embate entre servidores e Pochmann (31/01/2025)
Exame: Carta aberta de servidores acusa gestão Pochmann de viés autoritário (21/01/2025)
Poder360: Técnicos do IBGE entregam cargo após exoneração de pesquisadora (26/01/2026)
Metrópoles: Entenda o novo capítulo da crise entre servidores e direção do IBGE (28/01/2026)
Gazeta do Povo: Crise com servidores amplia desgaste de Pochmann (28/01/2026)
Poder360: MP junto ao TCU pede o afastamento de Pochmann do IBGE (11/03/2026)
Aos Fatos: desinformação para desacreditar dados econômicos do IBGE (24/02/2026)
Poder360: IBGE diz ser alvo de "mentiras" de funcionários e sindicatos (16/01/2025)