Sem assinatura, sem autor: o dossiê que Alexandre de Moraes usou contra André Mendonça, e por que Fachin tirou o caso da mão dele
Fachin retirou nesta sexta o pedido de Moraes contra Mendonça do inquérito das fake news, levando o caso para uma petição separada, analisada direto pela…

O confronto entre os ministros do STF Alexandre de Moraes e André Mendonça ganhou um desfecho processual nesta sexta-feira, 4 de setembro de 2026: o presidente da Corte, Edson Fachin, retirou o pedido de Moraes para investigar Mendonça de dentro do inquérito das fake news (INQ 4781), processo que o próprio Moraes relata desde 2019. O material passa a tramitar separadamente, na Petição 16.704, sob análise direta da presidência do STF. A Procuradoria-Geral da República e Mendonça têm cinco dias úteis para se manifestar sobre admissibilidade e regularidade do pedido.

O documento por trás da acusação

O que motivou essa mudança de rumo foi uma descoberta sobre a origem do pedido de Moraes: o texto se baseava num documento interno da Polícia Federal que, segundo análise publicada pelo jornalista David Agape na newsletter A Investigação, é composto por "quatro peças heterogêneas, sem assinatura, matrícula ou cargo do autor", com espaços em branco que deveriam ter sido preenchidos antes de circular. É importante uma distinção técnica: o documento parece autêntico na origem (produzido dentro da estrutura da PF), mas sem autoria intelectual declarada, carimbado como "distribuição restrita". Reportagens da Metrópoles e do Congresso em Foco confirmam de forma independente que o relatório não tem timbre oficial nem assinatura de delegado, e que o próprio texto se descreve como um "cenário temporário de análise", não um relatório final de investigação.

O que teria sumido no caminho até a decisão de Moraes

A análise de Agape comparou o texto da decisão de Moraes com o documento original e encontrou remoções sistemáticas: 28 blocos de classificação de confiança (que indicavam o grau de certeza de cada hipótese) desapareceram da decisão judicial; o aviso de que o material não tinha valor probatório, presente seis vezes no documento original, foi omitido por completo; hipóteses alternativas apresentadas no texto-fonte foram excluídas; e o item identificado como Y.7 teve sua conclusão sobre critério de seleção de alvos invertida em relação ao que dizia o original. Ao todo, segundo a mesma análise, 50,3% da decisão de Moraes (2.313 de um total de 4.628 palavras) veio copiado diretamente do dossiê.

Como o próprio documento se descrevia

O texto-fonte usava uma notação interna para classificar cada trecho: "(R)" para relatos ainda não formalizados, "(D)" para dados já documentados, e "(A)" para avaliação de analista, categorias que se misturaram na decisão final de Moraes. Uma frase do próprio documento, citada na análise, resume o alerta que não chegou à decisão: "hipótese em observação não é conclusão e não deve ser referida como tal fora deste documento".

A suspeita de monitoramento ilegal contra Mendonça

Paralelamente à questão da autoria do documento, ministros do STF levantaram uma segunda suspeita, mais grave: a de que Mendonça teria sido alvo de monitoramento ilegal. O que chamou atenção foi o fato de o material reproduzir falas de Mendonça em reuniões de trabalho reservadas, conteúdo que, segundo análise do jornalista Cláudio Dantas, só poderia ter chegado ao papel por um de três caminhos: informante infiltrado nos círculos do ministro, escuta eletrônica ilegal, ou captação ambiental do local da reunião. A mesma análise registra a ironia do episódio: "Moraes usa uma investigação ilegal para acusar Mendonça de investigá-lo ilegalmente", e especula que, se essa estrutura de monitoramento realmente existe, Mendonça não teria sido o único ministro sob vigilância. Vale reforçar: trata-se de teoria levantada por essas fontes, sem confirmação por perícia ou decisão judicial até a publicação desta matéria.

DICOR, o ponto de convergência

Os códigos que identificam as peças do documento remetem à DICOR, a Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção da PF. O diretor da DICOR desde julho de 2025, o delegado Dennis Cali, não aparece como autor de nenhuma das peças anônimas, mas sua diretoria é estruturalmente o ponto por onde passam os códigos de referência tanto do dossiê anônimo quanto de um relatório oficial separado (o IPJ-A), assinado pelos delegados Wedson Cajé Lopes e Guilherme Alves de Siqueira, este último também citado numa lista de sete agentes que o próprio Daniel Vorcaro mantinha. É importante não confundir os dois documentos: o relatório oficial tem autoria declarada; o dossiê usado por Moraes, não. Não há, nas fontes consultadas, qualquer indicação de que Cali, Cajé Lopes ou Siqueira tenham obstruído qualquer investigação.

Andrei Rodrigues no meio do fogo cruzado

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também está no centro do episódio. Segundo reportagens, o suposto monitoramento clandestino teria começado depois que a equipe de Rodrigues foi afastada do comando das Operações Sem Desconto e Compliance Zero por suspeita de interferência e vazamentos. Mendonça teria desconfiado de Rodrigues por sua proximidade com o presidente Lula, chegando a cogitar afastá-lo do comando da corporação; em resposta, os 27 superintendentes regionais da PF divulgaram nota conjunta em defesa da direção de Rodrigues.

O que já está confirmado e o que ainda é hipótese

Fica confirmado, com fonte e sem contestação encontrada: a origem sem assinatura do documento usado por Moraes, a decisão de Fachin de tirar o caso do inquérito das fake news, o afastamento da equipe de Rodrigues das duas operações, e a nota de apoio dos superintendentes da PF a ele. Fica como hipótese em apuração, não fato estabelecido: a teoria de monitoramento ilegal contra Mendonça e sua forma exata (informante, escuta ou captação ambiental), e qualquer responsabilização individual por ter produzido ou distribuído o dossiê anônimo. Esta redação optou por não reproduzir uma alegação, encontrada em fonte única não corroborada por veículos jornalísticos tradicionais nem pela análise mais detalhada do caso, de que o documento conteria indícios de ter sido escrito com apoio de ferramentas de inteligência artificial: sem verificação independente, essa afirmação não entra como fato nesta matéria.

Fontes

CNN Brasil: Fachin retira o pedido do inquérito das fake news

Correio Braziliense: a Petição 16.704 e os prazos de 5 dias

Metrópoles: o relatório sem valor probatório

Congresso em Foco: a íntegra do relatório usado por Moraes

A Investigação (David Agape): a análise das distorções, com números

A Investigação: os delegados citados e a estrutura da DICOR

Cláudio Dantas: a teoria do monitoramento ilegal

JOTA: as mensagens entre Vorcaro e Moraes

Poder360: os superintendentes da PF defendem Andrei Rodrigues

Revista Oeste: a desconfiança de Mendonça sobre Rodrigues

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